FÉ
E POLÍTICA LITORAL
Em
2011, o Encontro Nacional de Fé e Política, realizado em Embu das Artes – SP,
trouxe para o ambiente de reflexão da política que queremos, o legado dos povos
indígenas: Aymara, Quíchua e Guarani. Esses povos construíram sua maneira de
ser e estar no mundo, tendo por fundamentos o que se denomina Bem Viver. São
princípios que norteiam a vida do povo e sua relação entre seus pares e com o
mundo.
Na
ótica dos povos indígenas, Bem Viver é um conjunto de princípios, saberes,
ideias e propostas que reforçam as ações da comunidade em prol do bem de todos
os viventes da terra. Tais princípios são hoje resgatados à luz da nossa fé no
Evangelho de Jesus Cristo para uma nova construção social, política, cultural e
econômica.
Em
primeiro lugar, sabe-se que cada cultura indígena utiliza seus próprios termos
de acordo com sua língua para traduzir o Bem Viver. Assim, tomamos como
referência os três povos: Aymara, Quíchua e Guarani. Bem Viver para os povos
Aymara é suma qamanã. Ser qamiris é ser pessoa que vive bem. O ayllu
(comunidade, aldeia) regula a produção de alimentos e a criação de gados;
as decisões são tomadas pelas autoridades após consulta do seu povo. Não se
pode contrariar o povo, sob pena de ser castigado. Na cultura Quíchua, Bem
Viver é sumak kawsay. As pessoas buscam ser qhapaj (vivem bem). A
natureza é inerente à vida social. Já na cultura Guarani, Bem Viver é teko
porã. Os Guarani buscam ser pessoas em harmonia com a terra sagrada (tekoha),
pois assim se tornam yambae, pessoa boa. Seguem alguns dos princípios:
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Priorizar a vida – a vida de tudo o que tem vida.
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O consenso de todos – diálogo e consenso.
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Respeitar as diferenças – respeitar o outro. Saber escutar. Tolerar.
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Viver em complementaridade – as pessoas se complementam. Homem e natureza
também se complementam.
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Viver em equilíbrio com a natureza – Bem Viver é vida equilibrada com todos os
seres dentro da comunidade.
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A identidade do povo – vida a partir da história e dos valores da comunidade.
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Respeito às semelhanças e às diferenças – Bem Viver é complementar-se com
os seus semelhantes e diferentes.
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Direitos cósmicos – respeito à Mãe Terra e a todos os seus co-habitantes.
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Respeitar a mulher – ela representa a pachamama- Mãe Terra. Ela dá a
vida e cuida dos seus frutos.
Seguem
outros: trabalhar em reciprocidade; não roubar e não mentir; proteger as
sementes; recuperar os recursos naturais; aproveitar bem a água; escutar os
anciãos; saber comer e saber beber; saber se comunicar, etc.
Encontramos,
portanto, nesses povos uma fartura de princípios, saberes e experiências
fundamentais para a sociedade nova que desejamos. Países como Bolívia e Equador
já reescreveram a Constituição Nacional tendo por base o sumak kawsay –
o Bem Viver.
No
sonho renovado de uma nova organização social, política, cultural e econômica é
que o 9º Encontro Nacional de Fé e Política deste ano em Brasília, com o tema
“Cultura do Bem Viver, partilha e poder”, procurará refletir e expandir essa cultura
tão antiga e tão nova, compromissado com o Evangelho de Jesus na construção do
Reino do Bem Viver e na esperança de dias melhores para todos os habitantes da
terra.
(Referência
Bibliográfica: Cultura do Bem Viver, partilha e poder. Carlos Mesters e
Francisco Orofino – Iser Assessoria – CEBI)
No
sonho, na esperança e na luta pelo Evangelho do Bem Viver,
Pe
Mauro Nunes
Fé
e Política Litoral
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