sábado, 1 de junho de 2013

RE – CONSTRUIR A CULTURA DO BEM VIVER


FÉ E POLÍTICA LITORAL

Em 2011, o Encontro Nacional de Fé e Política, realizado em Embu das Artes – SP, trouxe para o ambiente de reflexão da política que queremos, o legado dos povos indígenas: Aymara, Quíchua e Guarani. Esses povos construíram sua maneira de ser e estar no mundo, tendo por fundamentos o que se denomina Bem Viver. São princípios que norteiam a vida do povo e sua relação entre seus pares e com o mundo.

Na ótica dos povos indígenas, Bem Viver é um conjunto de princípios, saberes, ideias e propostas que reforçam as ações da comunidade em prol do bem de todos os viventes da terra. Tais princípios são hoje resgatados à luz da nossa fé no Evangelho de Jesus Cristo para uma nova construção social, política, cultural e econômica.

Em primeiro lugar, sabe-se que cada cultura indígena utiliza seus próprios termos de acordo com sua língua para traduzir o Bem Viver. Assim, tomamos como referência os três povos: Aymara, Quíchua e Guarani. Bem Viver para os povos Aymara é suma qamanã. Ser qamiris é ser pessoa que vive bem. O ayllu (comunidade, aldeia) regula a produção de alimentos e a criação de gados; as decisões são tomadas pelas autoridades após consulta do seu povo. Não se pode contrariar o povo, sob pena de ser castigado. Na cultura Quíchua, Bem Viver é sumak kawsay. As pessoas buscam ser qhapaj (vivem bem). A natureza é inerente à vida social. Já na cultura Guarani, Bem Viver é teko porã. Os Guarani buscam ser pessoas em harmonia com a terra sagrada (tekoha), pois assim se tornam yambae, pessoa boa. Seguem alguns dos princípios:

. Priorizar a vida – a vida de tudo o que tem vida.

. O consenso de todos – diálogo e consenso.

. Respeitar as diferenças – respeitar o outro. Saber escutar. Tolerar.

. Viver em complementaridade – as pessoas se complementam. Homem e natureza também se complementam.

. Viver em equilíbrio com a natureza – Bem Viver é vida equilibrada com todos os seres dentro da comunidade.

. A identidade do povo – vida a partir da história e dos valores da comunidade.

. Respeito às semelhanças e às diferenças –  Bem Viver é complementar-se com os seus semelhantes e diferentes.

. Direitos cósmicos – respeito à Mãe Terra e a todos os seus co-habitantes.

. Respeitar a mulher – ela representa a pachamama- Mãe Terra. Ela dá a vida e cuida dos seus frutos.

Seguem outros: trabalhar em reciprocidade; não roubar e não mentir; proteger as sementes; recuperar os recursos naturais; aproveitar bem a água; escutar os anciãos; saber comer e saber beber; saber se comunicar, etc.

Encontramos, portanto, nesses povos uma fartura de princípios, saberes e experiências fundamentais para a sociedade nova que desejamos. Países como Bolívia e Equador já reescreveram a Constituição Nacional tendo por base o sumak kawsay – o Bem Viver.

No sonho renovado de uma nova organização social, política, cultural e econômica é que o 9º Encontro Nacional de Fé e Política deste ano em Brasília, com o tema “Cultura do Bem Viver, partilha e poder”, procurará refletir e expandir essa cultura tão antiga e tão nova, compromissado com o Evangelho de Jesus na construção do Reino do Bem Viver e na esperança de dias melhores para todos os habitantes da terra.

(Referência Bibliográfica: Cultura do Bem Viver, partilha e poder. Carlos Mesters e Francisco Orofino – Iser Assessoria – CEBI)

No sonho, na esperança e na luta pelo Evangelho do Bem Viver,

Pe Mauro Nunes

Fé e Política Litoral

 

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