sábado, 18 de agosto de 2012

AS ALIANÇAS E A ALIANÇA

Diácono Jayme Lopes do Couto



Entre os Israelitas, berit (aliança, juramento, pacto, contrato, testamento) é a instituição que
regula todos os direitos e deveres entre duas partes. A berit traz a paz (ṧālõm = shalom ), isto
é, o bem-estar, integridade, prosperidade, proteção plenitude da pessoa e de tudo o que lhe
pertence.
Tal relação poderia ocorrer entre pessoas de mesmo sangue (o clã ou a tribo) – os “da mesma
carne e dos mesmos ossos” (Gn 2,23; 29,14) – entre pessoas não aparentadas (1 Sm 18, 1-4) e
com a divindade (Dt 5, 1-21).
A aliança era concluída sob o juramento de ser respeitada e os contratantes arroataria com
todas as consequências. Para garantir a não violação do juramento, pronunciavam-se, a título
de sanção, maldições que recairiam sobre quem a transgredisse.
Geralmente se tomava YHWH como testemunha (2 Sm 21,7). Por estar sob a proteção e
guarda da divindade (1 Sm 20, 14-17.23), a aliança era sempre considerada como sagrada. O
descumprimento de alguma cláusula acarretaria a ação punitiva por esse guardião contra o
transgressor (Gn 3, 14-19.23; Am 1,9s).
Entre as populações mais antigas, esse juramento era selado com troca de sangue entre
os contratante do pacto. O ritual consistia em beber o sangue um do outro ou os sangues
misturados de cada um, ou imergindo as mãos em bacia cheia de sangue.
O sangue era considerado a sede da vida, a alma; a troca ou mistura de sangues passava a
simbolizar a comunhão, a união das almas. O comprometimento entre as partes, provocado
pela consanguinidade artificial assim conseguida.
Mais tarde, esse rito foi substituído pelo sacrifício de animais, oferecidos à divindade, os
quais eram divididos em duas partes, que os pactuantes passavam entre elas, pronunciando
fórmulas imprecatórias. Significava que os contratantes aceitavam, caso desobedecessem os
termos da aliança, a mesma sorte dos animais sacrificados. Ai final cada um dos indivíduos
consumia uma metade da vítima.
Complementava-se o rito com o plantio de uma árvore (Gn 21,33) a implantação de uma
estela de pedras (Gn 31, 43ss) , como “memorial” ou testemunho do pacto ou depositavam-se
fórmulas escritas em lugares sagrados, uma espécie de ordália1.
Às vezes, o banquete era a ocasião em que se selavam as alianças (Gn 26, 26-30; 2Sm 3,20s)
e neles o sal era indispensável como elemento que simbolizava a perenidade do pacto. Ritos
mais simplificados consistiam em um aperto de mão ou em presentear um ao outro (Gn
21,27.30) ou trocar vestes e armas (1 Sm 18,4) .
Deve-se ainda referir à aliança implícita entre o chefe do clã ou da tribo em relação ao seu
povo ou do pai em relação à família. Era o que se denominava em Israel o gō’êl (Lv 25,25),
Ordália – anglo-saxão ordeal – é um julgamento a que a divindade é chamada a pronunciar-se sobre a
inocência ou não de uma pessoa suspeita, mediante uma prova física a que tal ,pessoa deve submeter-
se. Em Nm 5, 11-31, tem-se um exemplo de ordália. É prática antiga que persistiu muito popular até
mesmo após a Idade Média.
1
aquele a quem competia, entre outros deveres, resgatar pessoas ou bens que tivessem caído
em mãos inimigas (Lv 25, 35.39s.47ss).
Ora, Israel se considerava o povo eleito de Deus, pois o próprio ‘Ĕlōhîm lhe enviara o seguinte
recado através de Moisés: “Assim dirás à casa de Jacó e declararás aos filhos de Israel: Vós
mesmos vistes o que fiz aos egípcios e como vos carreguei sobre as asas da águia e vos trouxe
a mim. Agora, se ouvires a minha voz e guardadas a minha aliança, sereis para mim uma
propriedade peculiar entre todos os povos, porque toda a terra é minha. Vós sereis para mim
um reino de sacerdotes e u7ma nação santa. Estas são as palavras que dirás aos filhos de
Israel”(Ex 19, 3c-6). Deus, portanto era o gō’êl (Resgatador ou Redentor) daquele povo. Por seu
turno, Israel deveria atuar como o missionário que converteria os outros povos para YHWH.
Israel se utiliza do conceito de berit para demonstrar seu especial relacionamento com o
Senhor Deus: é o povo eleito, o povo da aliança., porque a aliança é irrevogável e irretratável,
julga que sus subsistência e salvação estão garantidos.
AS ANTIGAS ALIANÇAS
O Deus da revelação é também o Deus da Aliança. Os pactos de YHWH com o povo de Israel
sempre foram de iniciativa do Senhor e caracterizam-se por trazerem Graças, promessas e, rm
contrapartida, exigem obrigações e deveres que, longe de significarem trocas compensatórias
querem ser condições que facilitem o diálogo, querem levar os homens à comunhão com
ele, apontar-lhes caminhos de libertação dos pecados. Portanto, a aliança está inserida no
economia da historia salutis, como ação característica e própria de Deus. Assim é a Graça: ação
salvífica.
Todas as alianças pactuadas no Antigo Testamento são alianças parciais e serviram à
pedagogia divina para preparar o povo eleito para a vinda do Ungido, do Messias, aquele que
levaria tais alianças à plenitude.
Podem-se distinguir, na redação da fonte sacerdotal 2do Pentateuco, quatro0 grandes
períodos: de Adão a Noé, de Noé a Abraão, de Abraão a Moisés e de Moisés a Josué.
A primeira Aliança foi pactuada entre Deus e o primeiro homem, Adão, no momento da
criação, quando YHWH estabelece as condições de vida do homem, abençoa-o e o chama ao
diálogo trinitário (Gn 1,26-2,3. A redação javista3 confirma o evento: após criar o homem (Gn
2,7), YHWH estabelece as condições de vida e as regras de relacionamento entre o homem e a
natureza e em ter o homem e ele próprio (Gn 2, 8-25 e o chama ao seu convívio (Gn 2,15) Esta
foi a primeira aliança que Deus tomou a iniciativa de apresentar ao homem, quebrada através
do pecado original originante, de consequências desastrosa para a humanidade (Gn 3).
A segunda aliança foi proposta a Noé (Gn 6,13-22; 9, 1-17), portadora, tanto quanto a
primeira, de caráter cósmico (o dilúvio sobre a terra, objeto de várias lendas cosmogônicas dos
povos mesopotâmicos), culmina esse período e garante a continuidade da vida sobre a terra
após a catástrofe climática.
2
A fonte sacerdotal ou fonte P se caracteriza por conter principalmente leis, normas e diretrizes sobre
moral e costumes. A autoria é atribuída a sacerdotes do Templo que receberam a tradição oral e a
colocaram por escrito em torno do século IX/X a.C.
3 A fonte javista ou J caracteriza-se por empregar o termo YHWH como o nome de Deus, por utilizar-
se frequentemente dos antropomorfismos, isto é, por apresentar Deus agindo como se homem fosse,
numa linguagem mais poética e adotar uma postura religiosa mais primitiva e conservadora.
A terceira aliança, realizada com Abraâo (Gn17) foi sucessivamente proposta à sua
descendência e com ela renovada: com Isaac (Gn 26, 1ss) e com Jacó (Gn 28, 13ss), conforme
foi referido a Moisés pelo próprio YHWH (Ex 6, 2ss). Na versão javista (Gn 15) a aliança é
apresentada sob o ritual antigo (Gn 15, 17) Suas cláusulas são fundamentalmente as mesmas
informadas pela fonte sacerdotal (Gn 17). Nesta última, ficou renovada a anterior (explicitada
em Gn 15) e garantidas as relações com a descendência de Abraão e Israel (Jacó) Assi9m se
encerra o segundo período.
A quarta aliança, no Sinai, desenvolveu-se em duas etapas: a primeira (Ex 20-31), antes do
episódio do bezerro de ouro, após Moisés ter relatado os acontecimentos e transmitido todas
as palavras e leis (Ex 20,22-23,19)), foram tomadas providências para selar a aliança, incluída
a leitura das tábuas e do Livro da Aliança (Ex 23, 20-24,18). Em seguida foi pronunciada a
promessa de fidelidade a YHWH (Ex 24, 3ss) e procedida a aspersão de sangue das vítimas
sacrificais sobre o povo à medida que a formula era pronunciada (Ex 24, 6ss). Como nos ritos
antigos a aliança foi comemorada com um banquete (Ex 24, 10s).
O episódio do bezerro de ouro – por desleixo e incompetência de Aarão – irritaram Moisés
tão profundamente que quebrou as tábuas onde foram escritas as cláusulas, mas intercedeu a
Deus por aquele povo impaciente e de cabeça dura (Ex 32).
A segunda etapa (Ex 34, 1-28) exigiu os mesmos procedimentos anteriores acrescentado de
um episódio marcante: a resplandecência do rosto de Moisés (Ex 34, 29-35), considerada como
reflexo da glória do Senhor.
Essa segunda etapa encerra o terceiro período e se caracterizou por sua dimensão vertical – o
estabelecimento de condições de relacionamento entre as tribos de Israel e o Senhor Deus –
e a horizontal , porque fixou regras para a convivência das tribos israelitas e os outros povos.
Sem dúvida, houve uma ampliação de objetivos, embora continuasse uma aliança parcial.
Nota-se que o povo judeu já passa a apresentar duas características importantes: a evolução
para o monoteísmo4 e para a nacionalidade.
Foi a aliança que começou a formar uma consciência comunitária, de solidariedade mútua
entre as tribos que ao longo do tempo frutificou para um nacionalismo judaico, geratriz
do desparecimento das tribos no judaísmo tardio. Nesse momento também se formava a
consciência de pertença ao Deu único, de povo eleito, de nação santa, a quem fora atribuída
a missão de converter outros povos ao Deus Único, o que dá dimensão universal à religião
instituída por YHWH.
Foi esta aliança que revelou o aspecto essencial do plano de salvação: reunir e unir os homens
em uma comunidade cultual (Ex 19,6) regido por sua lei, dedicada a seu serviço.
A quinta aliança, foi proposta por Deus a Josué, em Siquém e fecha o quarto período histórico
das alianças. Josué reuniu as tribos israelitas em Siquém (Js 24, 1) além de outras que a
elas se agregaram. Todos os convidados se postaram na presença de Josué, que pretendia
iniciar uma ,00000000000etapa fundamental: estava disposto a cumprir o que o Senhor
4
Monoteísmo é a prática religiosa que reconhece e adora um só Deus, excluindo a possibilidade da
existência de outros deuses ou entidades divinas. Observe-se que o povo israelita, até aquele momento,
na verdade, praticava uma monolatria, ou seja, como o henoteismo, apesar de adorar um só Deus,
reconhece a existência de outros deuses como verdadeiros. O que Moisés tentava implantar era um
monoteísmo, mas que somente foi alcançado bem mais à frente. De qualquer forma, o momento do
Sinai marcou o início dessa evolução, pois naquele momento passou a existir um grupo de monoteístas
puros que procuravam modificar a religiosidade popular.
Deus determinara no sentido de ocupar a Terra Prometida me invocou a presença de YHWH.
Assim dispostos na presença de Deus, Josué após discurso inflamado, apresentou a questão
fundamental: a quem queriam eles servir? Ele próprio e sua casa serviriam a YHWH; naquele
momento todos deveriam decidir-se a quem se dispunham a servir (Js 24, 14s): a Deus ou a
outras divindades?
Ao declararem que se dedicariam a YHWH, em oposição aos deuses pagãos, Josué confirmou
a aliança escrevendo essas palavras no Livro de Deus e erguendo uma estela (Js 24, 25ss).
Nesse momento, Josué consolida a “federação de tribos” israelitas, unidas na Arca da Aliança,
construída segundo determinação do Senhor Deus dadas a Moisés no Sinai (Ex25,10-16) e
assistido pelo próprio Josué, então lugar-tenente do profeta (Ex 32, 17; 33, 11). Moisés, ao
morrer, impôs as mãos sobre Josué, determinando, dessa forma que ele fosse seu sucessor na
liderança daquele povo (Dt 34,9).
Desse ponto em diante, as alianças que se fizeram sob a fase dos profetas (desde a monarquia
até o evento Cristo) podem ser analisadas sob dois ângulos:
a) o do chamado ao aprofundamento da antiga aliança que valeu até o exílio e
b) o que contempla a promessa de uma nova e definitiva aliança, que
compreende o período do exílio até Cristo.
É no profetismo que se desenvolve o messianismo. É com davi que, pela boca do profeta Natã,
o Senhor Deus efetuou uma aliança importante, pois acrescenta às alianças realizadas até
então, a cláusula da perenidade do trono de Davi (2 Sm 7, 12-17). O tipo de relação entre o
Senhor Deus e o rei de enche de intimidade e de amor (o Senhor Deus se declara como um pai,
cfe. 2 Sm 7,14), dentro do mesmo espírito de Ex 4,22 e Os, 11,1.
Mas, a partir daí, os profetas entram em rota de colisão com os reis e o povo. Passam a acusa-
los de terem transformado a aliança em uma espécie de “seguro”, face à ideia de que a
aliança – levada ao extremo – por ser irrevogável e irretratável, daria a certeza da salvação,
independentemente do comprometimento e da fidelidade em relação à Lei e à justiça (Am 3,1;
5, 18ss; Os 6,6ss; Is 1,11-17; Jr 7; Mq 6,6ss; Sl 50)
Passam a anunciar catástrofes para o povo pecador, infiel às antigas alianças e muito mais
confiante nas capacidades próprias que na Providência divina (Os 8,1ss; Is 24, 6ss; Am 9,7-10).
Querem, por outro lado, mostrar, à luz das experiências humanas mais expressivas, que Deus
é pai (Is 1, 2; Os 11, 1-4, é mãe (Is 49, 1-4ss), é pastor (Ez 34,11-16, é esposo traído, mas fiel
(Os 2, 4-22).
É nessa época que Israel se vê aniquilado e posto em exílio na Babilônia. O pacto foi rompido,
não por iniciativa de Deus. É como se fosse um casamento desfeito (Ex 16, 15-43). Logo, a
consequência das transgressões à Aliança levaram Israel a conviver com religiões pagãs, a
abdicar da liberdade de culto.
O plano de Deus, contudo, não se alterou por causa das quedas do povo eleito: sempre após
uma das quedas a misericórdia de Deus provocava a recuperação e nova aliança era firmada.
Deus é fiel a si mesmo e às suas promessas.
O que ele quer é a regeneração do filho. É o próprio YHWH, pela boca do profeta Jeremias,
que anuncia essa nova aliança (Jr 31, 31ss). Essa segunda linha de pensamento profético se
inicia na época do exílio, como renovação das esperanças de que os tempos messiânicos se
aproximavam e certamente viriam. Os profetas dessa época - e foram muitos – queriam
levantar o ânimo de um povo que se sentia abatido pelo que lhes sucedera.
Após cerca se setenta anos de cativeiro, Neemias conseguiu, com a ajuda de Esdras e de
muitos que voltaram de Babilônia, mais o “resto” de Israel que permanecera em Jerusalém,
levantar novo templo.
É o início da regeneração: quando deu por acabada a reinstalação da ci9dade, Neemias tomou
a providência de ler o Livro da Lei (o que foi feito por Esdras), exortou o povo a reconhecer
YHWH como o Deus, não só verbalmente (Ne 8, mas também por escrito (Ne 10) e ainda
mandou realizar cerimônia expiatória de purificação (Ne 9). Para muitos, isto equivaleu ao
restabelecimento do pacto com YHWH. Ficava, assim, iniciado o longo caminho de retomada
da aliança.
O profeta Ezequiel (ele também um exilado?) prevê um novo pastor (Ex 34, 23-31) e uma
radical modificação no espírito do povo, em função da nova aliança que seria proposta (Ez 36,
26-29a).
O Deutero-Isaías retoma o tema da esposa abandonada para prometer, movido pelo amor,
uma aliança indestrutível e definitiva (Is 54, 1-10; 55, 3). Tão grande é esse amor que o
mentor dessa aliança é o próprio Servo de YHWH (Is 42, 1-6; 49, 6), aquele desprezado e
abnadonado pelos homens, rejeitado pelos seus parentes, que morrerá espezinhado pelas
nossa iniquidades que assumiu para resgatar-nos (Is 53).
A ALIANÇA
Essa Aliança. Anunciada pelos profetas, atinge a plenitude no Senhor Jesus, o Servo de YHWH,
que se estabelece como artífice, mediador, vítima e resgate para que uma Nova Aliança eterna
e definitiva seja pactuada com o Pai. Por conseguinte, Cristo é, em si mesmo a Aliança Nova e
Eterna.
Podem-se distinguir quatro eventos importantes – na verdade quatro Mistérios principais da
religião católica – na elaboração do novo pacto: a encarnação do Verbo de Deus, a instituição
da Eucaristia, a Paixão e Morte (aqui implicado o Resgate) e a Ressurreição de Jesus Cristo,
expressão de sua Glória, a Vitória sobre a Morte (=pecado).
A Encarnação do Verbo do Pai, unindo à sua natureza divina a natureza humana, uma vez
por todas, implica o Filho, inexoravelmente à miséria humana. S. Paulo muito claramente
mostrou esse rebaixamento (Fl 2, 6-11) de Cristo Jesus que, melhor do que ninguém, expressa
a miserabilidade do homem mediante o Servo de YHWH do profeta Isaías.
A instituição da Eucaristia simboliza, por ser o sacramento central e mais representativo
de todos os sacramentos, a vontade do Pai em estabelecer canais da Graça que atingirá
aqueles que aderirem à Aliança. Essa instituição resume e simboliza a própria Aliança, se
apresenta como o memorial (“fazei isto em memória de mim”) do resgate, do sacrifício: ela
é a própria Aliança, porque nenhum dos elementos da aliança lhe falta, conforme descritos
anteriormente.
A Paixão e a Morte do Cristo cumprem a profecia do Servo de YHWH (Is 53) e o coloca como
vítima sacrifical e como resgate do povo de quem o Pai é o gō’êl.
A ressurreição é o esplendor da glória da Nova Aliança, a garantia de que a Morte (o Pecado)
foi vencida e de que a Aliança será mantida definitiva e eternamente.
Se assim é, o que distingue a Nova Aliança das outras antigas alianças?
Sem dúvida, as antigas alianças, tanto quanto a Nova caracterizam-se pela fidelidade, pela
justiça e pelo amor.
Fidelidade implica solidez, durabilidade, segurança, confiança. Deus é a rocha que se mantém
firme: é imutável, dá apoio; quando solicitado protege e socorre (Sl 62, 6ss).
Justiça traz a equidade, a ordem, a paz. No sentido corrente expressa o conceito de dar a cada
um o que lhe é devido. No texto hebraico é empregado o termo tsedeq que, aplicado a Deus
indica que ele é o distribuidor da justiça, absolutamente fiel a si e às suas promessa, coerente
nas ações e palavras, veraz.
Amor, no sentido de que tudo pode e jamais passará (1 Cor 13, 8). Nos textos do AT a palavra
hebraica hesed é sempre empregada para indicar o relacionamento entre Deus e o homem.
Refere-se às entranhas do indivíduo (principalmente da mulher) o que está no mais íntimo do
indivíduo e significa o afeto, a bondade, a fidelidade, o favor, a graça (de Deus), a compaixão
que cimentam a solidariedade do clã, concretizada na responsabilidade mútua (na graça e na
desgraça), expressa, por exemplo, na função do gō’êl. Pode ser entendia como misericórdia ou
amor gratuito, da livre iniciativa de Deus (agápe).
A diferença está, portanto na qualidade da Aliança: “De fato, se a primeira aliança fora sem
defeito, não se trataria de substituí-la por uma segunda” ((Hb 8,7).
Na primeira aliança, a transgressão, o pecado do homem, foi introduzido no mundo e por meio
dele a morte (Rm 5, 12); na Nova, o Cristo traz a vida ( Rm 5,18)
As renovações seguintes, segundo o testemunho dos profetas, se tornaram necessárias,
porque o homem sempre voltava a quebrar a palavra dada. Lembre-se, por exemplo, na
Aliança do Sinai, enquanto Moisés dialogava com o Senhor Deus sobre o pacto, o povo se
voltava para deuses pagãos, elegendo um bezerro de ouro como seu ídolo. Na Nova, já não é
um homem comum que dialoga com Deus, mas seu próprio Filho com suas duas naturezas, a
divina e a humana.
Se nas antigas alianças a Lei era o fundamento, na Nova, livres da Lei, livres em Cristo jesus
(Rm 7, 6) os cristãos já não agem em função da letra, mas do Espírito de Cristo (Rm 8, 2s).
Observe-se , com Cantalamessa, que a Aliança do Sinai realizou-se cinquenta dias depois da
Páscoa (Ex 19,1s), início da festa de Pentecostes, ao final da qual Lucas descreve a efusão do
Espírito Santo sobre aquela pequena Igreja reunida no cenáculo, com traços equivalentes aos
da teofania do Sinai (At (2, 1-4) Nada mais correto que vincular a Nova Aliança, a Nova Lei, à
Graça do Espírito Santo.
Essa presença do Espírito Santo de Deus sobre aquelas 120 pessoas (entre as quais a Virgem
Maria) quer indicar que a Nova Aliança, instituída e comemorada na Santya Ceia é lei esíritual
e selou definitiva eternamente esse pacto e consagra – da mesma forma que em Ex 19, 6) – o
povo régio e sacerdotal que constituía a Igreja de Jesus Cristo (as 12 tribos perfeitas de Israel,
o “pequeno resto”, representadas pelo número 120 = 12 x 10): os sacerdotes comuns não
ordenados, os leigos e os ordenados vivos ou mortos.
Essa lei, engendrada eternamente, cujo artífice assumiu a humanidade, não mais está escrita
nas tábuas, mas no coração de cada um dos irmãos do artífice (Ez 36, 26s). Não mais é uma
aliança na letra, mas no Espírito (2 Cor 3, 6).
O mediador, nas antigas alianças, sempre foi um homem; na Nova Aliança é aquele a quem o
Pai chamou de Filho, é o Sumo Sacerdote, aquele sacerdote para sempre, segundo0 a ordem
de Melquisedec”, que ab-rogou a Lei (Hb 7, 18). Ele é o sacerdote perfeito que não precisa
oferecer sacrifícios expiatórios nem por si nem pelo povo, pois ele é a própria vítima imolada
uma vez por todas (Hb 7, 27s).
O Senhor Jesus, o Cordeiro de Deus, se ofereceu livre e espontaneamente como vítima do
sacrifício, para que, por seu sangue, se selasse a Nova Aliança. Por sua perfeição, esse sacrifício
foi realizado uma vez por todas: é irrepetível. Prescinde de qualquer outro (Hb 10,1-18). A
Aliança está definitivamente selada.
Ele se ofereceu como resgate pelas transgressões praticadas por toda a humanidade (em
favor de muitos), tal qual o Servo de YHWH (Is 53), pois essa era a missão de que foi incumbido
pelo Pai (Jo 17,18). Apesar de todo o sentimento de abandono, a vontade do Pai era de tal
ordem vital para ele (Jo 4, 34) que se entregou totalmente para estabelecer a Nova Aliança,
mesmo que isto significasse tornar-se o resgate.
É o conceito próprio do gō’êl, que, mesmo à custa de sua vida, se atira ao combate para
proteger seu povo e dar-lhe a liberdade da morte do pecado. Ele garantiu, de modo novo,
ao seu povo, o acesso à Graça divina, através da qual restabeleceu o diálogo trinitário,
desprezado pelos primeiros pais.
Este fato nos encaminha para a dimensão escatológica da Nova Aliança, pois a Eucaristia nos
projeta na Parusia, mas, ao mesmo tempo, nos mantém no tempo presente, no sentido de que
a conversão deve ser aqui e agora, mas só será plena no Dia do Senhor.

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